PADARIA ABRANTES COM NOVA GERÊNCIA

GESTOR E ENFERMEIRO EM COIMBRA NA PRIMEIRA LINHA NO COMBATE À COVID

André Henriques é um dos rostos da nova gerência da padaria Abrantes, uma unidade que aposta em manter a qualidade do produto que comercializa, com destaque para a broa feita com o milho produzido á moda antiga por um moleiro nos moinho  em  Sevilha. Nestes tempos de crise, privilegia ainda a ação solidária, fornecendo pão a famílias carenciadas de Tábua e Oliveira do Hospital, o concelho que viu nascer esta empresa familiar nos anos noventa e que agora se revitaliza.

“Quisemos preservar a história da empresa, mantendo a sua designação. Somos de Oliveira do Hospital, onde temos a padaria Pambeira e entramos no reino da panificação há três anos”, começa por nos dizer este responsável, ainda jovem. André herdou o seu gosto pelo sector da panificação por tradição familiar, pois a família está no mercado desde 1928, na altura em que o bisavô abriu uma padaria em São Paio de Gramaços. Foram alguns acidentes dramáticos de percurso – a morte de um tio que geria o negócio e, depois, o falecimento do filho deste num acidente de automóvel – que levaram o nosso entrevistado a ficar à frente dos destinos da empresa. Incutiu um estilo mais profissional, embora a sua principal atividade profissional seja a de enfermeiro (ver caixa). A irmã, que o coadjuva, é fisioterapeuta e há ainda o pai, a que se juntaram dois colaboradores que já estavam com eles há quarenta anos.

A aposta em Tábua passou pela necessidade de ampliar o espaço, pois a empresa foi-se expandindo. ”Em três anos, crescemos de uma forma exponencial e surgiu esta oportunidade de adquirir a padaria Abrantes, pelas mãos da anterior gestão, os Srs. Rui Andrade e Christophe Coimbra. Posso dizer que introduzimos os dois melhores: o melhor que se fazia aqui e o que produzíamos em Oliveira do Hospital. A nível de qualidade do pão fizemos alguns ajustes nas receitas, trouxemos as nossas equipas, modernizamos equipamento, ao nível de linhas de produção, de forma a conseguirmos chegar a outros patamares que ambicionávamos”.

 Neste momento, saem 20 mil unidades por dia, destacando-se a broa de milho com a matéria-prima vinda diretamente de um moleiro de Sevilha, o que faz com que ganhe um sabor especial. “Temos ainda o nosso centeio sem qualquer mistura de forma a manter a sua originalidade, a nossa carcaça, o pão de bico e uma forte aposta na doçaria”.

Nesta altura de pandemia, há um reforço na distribuição pelas aldeias. Mas André destaca ainda que fornecem gratuitamente pão a algumas famílias carenciadas, seja por estarem afetadas pelo vírus, ou por terem perdido os empregos.

No espaço de fabrico da padaria, há um mural numa das paredes que sobressai; “Vocês são a base do nosso sucesso”. Bem demonstrativo do espírito que existe no relacionamento entre patrões e empregados, sendo estes denominados ”colaboradores”.

”Neste momento, temos cerca de quarenta”, revela André, esclarecendo que esta pandemia fez com que a faturação diminuísse 30 por cento, “facto que se deve ao fecho das creches e restaurantes”. Neste momento, são os fornecedores da Caritas Diocesana em todo o distrito de Coimbra, o que representa 40 por cento da produção diária. Tiveram um caso isolado de um trabalhador que ficou infetado com o vírus, reforçando internamente as medidas de segurança. E, caso insólito, foram estabelecidos “acordos de amizade” com os concorrentes em Tábua: “Se acontecesse algum surto na nossa empresa, eles trabalhariam o nosso pão, distribuindo-o pela clientela desta padaria, e o mesmo iriemos fazer em relação a eles, tem de haver entreajuda nestas alturas criticas”.

Os projetos para o futuro vão passar pela produção de pão congelado e a entrada no mercado dos bolos secos, “que não é ainda muito explorado na nossa zona”, estando a preparar uma candidatura para fundos comunitários para esse fim.

GESTOR DA PADARIA E ENFERMEIRO NOS HOSPITAIS DE COIMBRA:

“VIVEMOS NUM CENÁRIO DE GUERRA”

André acumula a gestão da padaria com a atividade de enfermeiro nos hospitais de Coimbra. Fala-nos sobre esse aspeto curioso e a sensação de combater esta pandemia estando na primeira linha de combate: “São poucas horas de sono. Há muitos anos que trabalho no bloco operatório e ofereci-me como voluntário para a urgência dos Covões, para ajudar no tratamento aos doentes Covid-19.Vive-se uma situação catastrófica, um autêntico cenário de guerra. Os espaços estão superlotados, com escolhas que se têm de fazer no imediato e que vão contra o nosso pensamento, que nos fazem meditar se esta é de facto a escolha certa da profissão. Às vezes, há dois enfermeiros para sessenta doentes, temos casos positivos que estão em contato com pessoas ainda dadas como suspeitas e que, mais tarde, acabam por ser contaminadas devido a essa proximidade. Estamos surpreendidos com o facto de estarem a aparecer cada vez em maior número jovens entre os 25 e os 40 anos, os quais descompensam com grande facilidade e a única solução para os segurar com vida passa pela ventilação mecânica nos Cuidados Intensivos. Sem dúvida que a abertura do natal potenciou este aumento de casos e o pico poderá ser em breve atingido, pois pensa-se que possa estar relacionado com as eleições presidenciais, pois houve muitas pessoas que estiveram nas mesas de voto e que, posteriormente, foram diagnosticadas como positivas. Deviam ter sido adiadas essas eleições, bastava ter havido uma revogação de todos os candidatos”.

 E um conselho final (e importante) dado pelo André: “As pessoas pensam que a vacina as vai tornar imunes à doença o que é um erro, Traz alguma imunidade, não sentem os atuais sintomas, mas podem ser transmissoras do vírus caso o contraiam. Portanto, um conselho a quem nos lê: apesar de ter sido vacinado, continue a andar com máscara para proteger os outros”.

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